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Fui ontem assistir “Elis – filme”.
Aguardava este lançamento ansiosa, por tê-la como a grande intérprete de um tempo que não vivi, mas de que sou fruto.

E sobre esse fruto passeio o dia pensando

“Que geração musical e cultural é essa minha?”

e ainda

“Quais são nossos ideais? Pelo que lutamos e que se expressa em nossa cultura?”

Elis, em uma de suas últimas entrevistas disse que aquela ditadura (a militar) havia acabado. Mas que operava-se uma ainda pior: uma ditadura que censura o que não vende. Que escolhe o que deve ser ouvido e repete exaustivamente até que nos acostumemos, acreditando que escolhemos gostar daquilo.

Sou fruto de uma geração que considero ímpar em qualidade musical e em reflexão social…. E não sei onde foram parar esses frutos.

Para essas reflexões trago palavras tão melhores que a minha de Rubem Alves. Um texto de 1997 e que hoje me peguei ainda atribuindo tanto sentido:

O fim da banda
“Às vezes eu tenho saudades da ditadura.”
Meu amigo, que me ouvia, se horrorizou.
Aí eu expliquei: “É que no tempo da ditadura a gente tinha uma explicação para as desgraças do país: a gente está do jeito como está porque tiraram a liberdade da gente: os milicos, bode expiatório. Quando existe um bode expiatório todo mundo fica de acordo, unido contra ele. A gente sonhava: no dia em que a liberdade voltar tudo vai ficar diferente”.
No tempo da ditadura eu era bonito. No tempo da ditadura o povo era bonito. Ainda choro ouvindo o Chico cantar: “Hoje você é quem manda, falô tá falado, não tem discussão”. Mas aí vinha o refrão: “Apesar de você, amanhã há de ser um novo dia: o galo vai cantar sem pedir licença, o jardim vai florescer, o sol vai nascer e a gente vai se amar sem parar”. E pra terminar ele dizia que “esse dia há de vir antes do que você pensa”.
O dia chegou. Mas o galo não cantou, o jardim não floresceu, a gente não se amou, a noite continuou, sem anúncios de madrugada. Quem fez a festa foram os urubus.
Tem um texto do Evangelho que diz que Jesus, olhando as multidões, “compadeceu-se delas porque elas andavam desgarradas e errantes como ovelhas que não têm pastor”. Pensei em nossa gente. Povo é ovelha. Ovelha não é cabrito montês. Cabrito montês tem idéias próprias, vive sozinho, no alto das montanhas, anda na beirada dos precipícios, sobe sobre as rochas: coitado do pastor que tentar mantê-los sob controle. Já as ovelhas não têm idéias próprias, seguem o rebanho, que vai andando seguindo a voz ou a flauta do pastor. Sem voz de pastor e sem flauta elas ficam perdidas: vem o lobo e as dispersa, mata e come. Assim estamos nós: há lobos por todos os lados. Há os lobos gordos, de pele lustrosa, fantasiados de ovelhas: eles andam pelos corredores dos palácios e gozam de imunidades parlamentares. Há os lobos que só se movimentam no escuro, ninguém sabe o nome deles até que alguém os pilhe fazendo o que sempre fazem, comendo a gordura das ovelhas às escondidas. Eles roubam, de um jeito que eu nem entendo, roubos com nomes esquisitos que eu nunca pensei que houvesse. Há os outros lobos que mais se parecem com cães vadios ou hienas, dentes arreganhados, à espreita, na tocaia, esperando a hora de atacar. Nossas cidades se transformaram em lugares de medo.
Tem um conceito em sociologia que é importante: os “outros significantes”. Outro é qualquer pessoa que não seja a gente. A gente está cercada de uma multidão de outros. Para a maioria dos outros a gente não dá a menor bola, não têm nome sociológico. Eu vou criá-lo. São os “outros significantes”. É como se eles não existissem. Ninguém quer pertencer ao grupo dos “outros insignificantes”. Já os “outros significantes” são aqueles que importam, aqueles que levamos em consideração ao tomar atitudes. Precisamos deles. Temos medo deles. Quais são os “outros significantes” do presidente? Eu tenho a impressão de que os “outros significantes” do presidente não são o povo. Não é culpa dele não, coitado. A combinação narcisismo + poder é fatal para qualquer pessoa. Se eu estivesse na posição dele não posso garantir que não estivesse sofrendo da mesma doença que, no momento, o aflige. É doença mais mortal que Aids e não existe a menor esperança de que se descubra vacina para ela.
(…)
Santo Agostinho disse que “povo é um conjunto de pessoas racionais unidas pelo mesmo sonho”. O Geraldo Vandré disse a mesma coisa, com poesia diferente: “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. É isso: há de haver uma canção que todos cantam e que indica o caminho. O Chico, nos anos de ditadura, esperto como ele só, falou de um jeito que os milicos não entenderam (milicos e cientistas são duros de entender metáfora. Sobre os milicos eu já sabia. Sobre os cientistas aprendi na última reunião da SBPC). Falou de uma Banda. “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Aí ele desanda a falar do faroleiro que contava vantagem, da namorada que contava as estrelas, do homem rico que contava o dinheiro, da moça feia debruçada na janela, cada um com o seu sonho pequeno. Mas foi só a Banda tocar para que cada um deles se esquecesse dos sonhos pequenos por amor ao sonho grande. Começaram a seguir a Banda: viraram povo. Um povo nasce quando as pessoas trocam seus sonhos pequenos (individuais) por um sonho grande (comum).
Um líder político é aquele que ajuda um povo a nascer. Mas um povo só nasce quando os indivíduos são seduzidos por um sonho de beleza. A beleza do sonho é a comida que mantém a vida do povo. Que sonho temos? Moeda estável, sem inflação? Mas isso não é sonho que chegue para formar um povo. É verdade que inflação é barco furado. Com barco furado não se navega. Verdade é também que moeda estável é barco sem furo. Mas barco sem furo não basta pra navegar. Pra navegar é preciso sonhar com um porto. Esse porto, na linguagem da política, tem o nome de utopia. Vão me dizer que utopias são inatingíveis. Concordo e retruco com Mário Quintana:
“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes seriam os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!”.
A mágica presença das estrelas! É isso que os políticos nos roubaram. Os povos estão sempre dispostos a passar pelas mais duras provações, desde que essas mesmas provações tenham um sentido: as dores de parto são bem-vindas pelo filho que vai nascer.
O presidente se esqueceu do povo. O povo não é o seu “outros significantes”. Por isso ele não gasta tempo para fazer o povo sonhar. Estamos “desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor…”.
O tempo da ditadura era noite. Mas no céu havia estrelas. Eu sonhava.
Veio o dia. Mas a noite continuou. Céu sem estrelas. Já não sonhamos.
Resta-nos a dura vida sem sonhos.
É hora de cantar o último verso d’A banda:
“Mas para meu desencanto
o que era doce acabou
tudo tomou seu lugar depois que a banda passou”.

ps: Super recomendo o filme! Excelente! Que ele inspire novos acordes e novas bandas venham nos fazer parar, desistir da dor, pensar…