{"id":582,"date":"2017-09-13T05:53:21","date_gmt":"2017-09-13T13:53:21","guid":{"rendered":"http:\/\/escoladomino.com.br\/site\/?p=582"},"modified":"2017-09-13T05:53:21","modified_gmt":"2017-09-13T13:53:21","slug":"elis-traga-a-banda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/escoladomino.com.br\/site\/2017\/09\/13\/elis-traga-a-banda\/","title":{"rendered":"Elis, traga a banda."},"content":{"rendered":"<p>Fui ontem assistir &#8220;Elis &#8211; filme&#8221;.<br \/>\nAguardava este lan\u00e7amento ansiosa, por t\u00ea-la como a grande int\u00e9rprete de um tempo que n\u00e3o vivi, mas de que sou fruto.<\/p>\n<div class=\"separator\"><a href=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-iikBW8BMaiw\/WEXzlZD1RFI\/AAAAAAAAFCc\/SWYjaE8sax0X5sjv6DQF5WsuSzY4MwAOgCLcB\/s1600\/ELIS.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-iikBW8BMaiw\/WEXzlZD1RFI\/AAAAAAAAFCc\/SWYjaE8sax0X5sjv6DQF5WsuSzY4MwAOgCLcB\/s320\/ELIS.jpg\" width=\"320\" height=\"180\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p>E sobre esse fruto passeio o dia pensando<\/p>\n<p>&#8220;Que gera\u00e7\u00e3o musical e cultural \u00e9 essa minha?&#8221;<\/p>\n<p>e ainda<\/p>\n<p>&#8220;Quais s\u00e3o nossos ideais? Pelo que lutamos e que se expressa em nossa cultura?&#8221;<\/p>\n<p>Elis, em uma de suas \u00faltimas entrevistas disse que aquela ditadura (a militar)\u00a0havia acabado. Mas que operava-se uma ainda pior: uma ditadura que censura o que n\u00e3o vende. Que escolhe o que deve ser ouvido e repete\u00a0exaustivamente at\u00e9 que nos acostumemos, acreditando que escolhemos gostar daquilo.<\/p>\n<div class=\"separator\"><a href=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-IRKPlO0kF5g\/WEX1eDpOUBI\/AAAAAAAAFCk\/fd-PtiWx5NMjIvRXPx3vX4GBXaF-UkCEACLcB\/s1600\/2010-11-16-charge-censura.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-IRKPlO0kF5g\/WEX1eDpOUBI\/AAAAAAAAFCk\/fd-PtiWx5NMjIvRXPx3vX4GBXaF-UkCEACLcB\/s640\/2010-11-16-charge-censura.jpg\" width=\"640\" height=\"228\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p><em>Sou fruto de uma gera\u00e7\u00e3o que considero \u00edmpar em qualidade musical e\u00a0em reflex\u00e3o social&#8230;. E n\u00e3o sei onde foram parar esses frutos.<\/em><\/p>\n<p>Para essas reflex\u00f5es trago palavras t\u00e3o melhores que a minha de Rubem Alves. Um texto de 1997 e que hoje me peguei ainda atribuindo tanto sentido:<\/p>\n<p>O fim da banda<br \/>\n\u201c\u00c0s vezes eu tenho saudades da ditadura.\u201d<br \/>\nMeu amigo, que me ouvia, se horrorizou.<br \/>\nA\u00ed eu expliquei: \u201c\u00c9 que no tempo da ditadura a gente tinha uma explica\u00e7\u00e3o para as desgra\u00e7as do pa\u00eds: a gente est\u00e1 do jeito como est\u00e1 porque tiraram a liberdade da gente: os milicos, bode expiat\u00f3rio. Quando existe um bode expiat\u00f3rio todo mundo fica de acordo, unido contra ele. A gente sonhava: no dia em que a liberdade voltar tudo vai ficar diferente\u201d.<br \/>\nNo tempo da ditadura eu era bonito. No tempo da ditadura o povo era bonito. Ainda choro ouvindo o Chico cantar: \u201cHoje voc\u00ea \u00e9 quem manda, fal\u00f4 t\u00e1 falado, n\u00e3o tem discuss\u00e3o\u201d. Mas a\u00ed vinha o refr\u00e3o: \u201cApesar de voc\u00ea, amanh\u00e3 h\u00e1 de ser um novo dia: o galo vai cantar sem pedir licen\u00e7a, o jardim vai florescer, o sol vai nascer e a gente vai se amar sem parar\u201d. E pra terminar ele dizia que \u201cesse dia h\u00e1 de vir antes do que voc\u00ea pensa\u201d.<br \/>\nO dia chegou. Mas o galo n\u00e3o cantou, o jardim n\u00e3o floresceu, a gente n\u00e3o se amou, a noite continuou, sem an\u00fancios de madrugada. Quem fez a festa foram os urubus.<br \/>\nTem um texto do Evangelho que diz que Jesus, olhando as multid\u00f5es, \u201ccompadeceu-se delas porque elas andavam desgarradas e errantes como ovelhas que n\u00e3o t\u00eam pastor\u201d. Pensei em nossa gente. Povo \u00e9 ovelha. Ovelha n\u00e3o \u00e9 cabrito mont\u00eas. Cabrito mont\u00eas tem id\u00e9ias pr\u00f3prias, vive sozinho, no alto das montanhas, anda na beirada dos precip\u00edcios, sobe sobre as rochas: coitado do pastor que tentar mant\u00ea-los sob controle. J\u00e1 as ovelhas n\u00e3o t\u00eam id\u00e9ias pr\u00f3prias, seguem o rebanho, que vai andando seguindo a voz ou a flauta do pastor. Sem voz de pastor e sem flauta elas ficam perdidas: vem o lobo e as dispersa, mata e come. Assim estamos n\u00f3s: h\u00e1 lobos por todos os lados. H\u00e1 os lobos gordos, de pele lustrosa, fantasiados de ovelhas: eles andam pelos corredores dos pal\u00e1cios e gozam de imunidades parlamentares. H\u00e1 os lobos que s\u00f3 se movimentam no escuro, ningu\u00e9m sabe o nome deles at\u00e9 que algu\u00e9m os pilhe fazendo o que sempre fazem, comendo a gordura das ovelhas \u00e0s escondidas. Eles roubam, de um jeito que eu nem entendo, roubos com nomes esquisitos que eu nunca pensei que houvesse. H\u00e1 os outros lobos que mais se parecem com c\u00e3es vadios ou hienas, dentes arreganhados, \u00e0 espreita, na tocaia, esperando a hora de atacar. Nossas cidades se transformaram em lugares de medo.<br \/>\nTem um conceito em sociologia que \u00e9 importante: os \u201coutros significantes\u201d. Outro \u00e9 qualquer pessoa que n\u00e3o seja a gente. A gente est\u00e1 cercada de uma multid\u00e3o de outros. Para a maioria dos outros a gente n\u00e3o d\u00e1 a menor bola, n\u00e3o t\u00eam nome sociol\u00f3gico. Eu vou cri\u00e1-lo. S\u00e3o os \u201coutros significantes\u201d. \u00c9 como se eles n\u00e3o existissem. Ningu\u00e9m quer pertencer ao grupo dos \u201coutros insignificantes\u201d. J\u00e1 os \u201coutros significantes\u201d s\u00e3o aqueles que importam, aqueles que levamos em considera\u00e7\u00e3o ao tomar atitudes. Precisamos deles. Temos medo deles. Quais s\u00e3o os \u201coutros significantes\u201d do presidente? Eu tenho a impress\u00e3o de que os \u201coutros significantes\u201d do presidente n\u00e3o s\u00e3o o povo. N\u00e3o \u00e9 culpa dele n\u00e3o, coitado. A combina\u00e7\u00e3o narcisismo + poder \u00e9 fatal para qualquer pessoa. Se eu estivesse na posi\u00e7\u00e3o dele n\u00e3o posso garantir que n\u00e3o estivesse sofrendo da mesma doen\u00e7a que, no momento, o aflige. \u00c9 doen\u00e7a mais mortal que Aids e n\u00e3o existe a menor esperan\u00e7a de que se descubra vacina para ela.<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nSanto Agostinho disse que \u201cpovo \u00e9 um conjunto de pessoas racionais unidas pelo mesmo sonho\u201d. O Geraldo Vandr\u00e9 disse a mesma coisa, com poesia diferente: \u201cCaminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 isso: h\u00e1 de haver uma can\u00e7\u00e3o que todos cantam e que indica o caminho. O Chico, nos anos de ditadura, esperto como ele s\u00f3, falou de um jeito que os milicos n\u00e3o entenderam (milicos e cientistas s\u00e3o duros de entender met\u00e1fora. Sobre os milicos eu j\u00e1 sabia. Sobre os cientistas aprendi na \u00faltima reuni\u00e3o da SBPC). Falou de uma Banda. \u201cEstava \u00e0 toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor\u201d. A\u00ed ele desanda a falar do faroleiro que contava vantagem, da namorada que contava as estrelas, do homem rico que contava o dinheiro, da mo\u00e7a feia debru\u00e7ada na janela, cada um com o seu sonho pequeno. Mas foi s\u00f3 a Banda tocar para que cada um deles se esquecesse dos sonhos pequenos por amor ao sonho grande. Come\u00e7aram a seguir a Banda: viraram povo. Um povo nasce quando as pessoas trocam seus sonhos pequenos (individuais) por um sonho grande (comum).<br \/>\nUm l\u00edder pol\u00edtico \u00e9 aquele que ajuda um povo a nascer. Mas um povo s\u00f3 nasce quando os indiv\u00edduos s\u00e3o seduzidos por um sonho de beleza. A beleza do sonho \u00e9 a comida que mant\u00e9m a vida do povo. Que sonho temos? Moeda est\u00e1vel, sem infla\u00e7\u00e3o? Mas isso n\u00e3o \u00e9 sonho que chegue para formar um povo. \u00c9 verdade que infla\u00e7\u00e3o \u00e9 barco furado. Com barco furado n\u00e3o se navega. Verdade \u00e9 tamb\u00e9m que moeda est\u00e1vel \u00e9 barco sem furo. Mas barco sem furo n\u00e3o basta pra navegar. Pra navegar \u00e9 preciso sonhar com um porto. Esse porto, na linguagem da pol\u00edtica, tem o nome de utopia. V\u00e3o me dizer que utopias s\u00e3o inating\u00edveis. Concordo e retruco com M\u00e1rio Quintana:<br \/>\n\u201cSe as coisas s\u00e3o inating\u00edveis\u2026 ora!<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 motivo para n\u00e3o quer\u00ea-las\u2026<br \/>\nQue tristes seriam os caminhos, se n\u00e3o fora<br \/>\nA m\u00e1gica presen\u00e7a das estrelas!\u201d.<br \/>\nA m\u00e1gica presen\u00e7a das estrelas! \u00c9 isso que os pol\u00edticos nos roubaram. Os povos est\u00e3o sempre dispostos a passar pelas mais duras prova\u00e7\u00f5es, desde que essas mesmas prova\u00e7\u00f5es tenham um sentido: as dores de parto s\u00e3o bem-vindas pelo filho que vai nascer.<br \/>\nO presidente se esqueceu do povo. O povo n\u00e3o \u00e9 o seu \u201coutros significantes\u201d. Por isso ele n\u00e3o gasta tempo para fazer o povo sonhar. Estamos \u201cdesgarrados e errantes como ovelhas que n\u00e3o t\u00eam pastor\u2026\u201d.<br \/>\nO tempo da ditadura era noite. Mas no c\u00e9u havia estrelas. Eu sonhava.<br \/>\nVeio o dia. Mas a noite continuou. C\u00e9u sem estrelas. J\u00e1 n\u00e3o sonhamos.<br \/>\nResta-nos a dura vida sem sonhos.<br \/>\n\u00c9 hora de cantar o \u00faltimo verso d\u2019A banda:<br \/>\n\u201cMas para meu desencanto<br \/>\no que era doce acabou<br \/>\ntudo tomou seu lugar depois que a banda passou\u201d.<\/p>\n<p>ps: Super recomendo o filme! Excelente! Que ele inspire\u00a0novos acordes e novas bandas venham nos fazer parar, desistir da dor, pensar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui ontem assistir &#8220;Elis &#8211; filme&#8221;. Aguardava este lan\u00e7amento ansiosa, por t\u00ea-la como a grande int\u00e9rprete de um tempo que n\u00e3o vivi, mas de que sou fruto. E sobre esse fruto passeio o dia pensando &#8220;Que gera\u00e7\u00e3o musical e cultural \u00e9 essa minha?&#8221; e ainda &#8220;Quais s\u00e3o nossos ideais? 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